Prólogo
Tradução de Marcelo Backes
O
humanismo real não tem, na Alemanha, inimigo mais perigoso do que o espiritualismo
– ou idealismo especulativo – que, no lugar do ser humano
individual e verdadeiro, coloca a “autoconsciência” ou o “espírito”
e ensina, conforme o evangelista: “O espírito é quem vivifica, a carne não
presta”. Resta dizer que esse espírito desencarnado só tem espírito em sua
própria imaginação. O que nós combatemos na Crítica baueriana é
justamente a especulação que se reproduz à maneira de caricatura.
Ela representa, para nós, a expressão mais acabada do princípio cristão-germânico,
que faz sua derradeira tentativa ao transformar a crítica em si numa
força transcendental.
Nossa
exposição se atém principalmente ao “Jornal Literário Geral”[1]
de Bruno Bauer – e seus oito primeiros cadernos estavam a nosso dispor
–, porque é ali que a Crítica baueriana, e com ela o despropósito da especulação
alemã como um todo, alcançam o ápice. A Crítica crítica[2]
(ou seja, a crítica do “Jornal Literário”) torna-se tanto mais instrutiva,
quanto mais converte a inversão da realidade, empreendida através da filosofia,
na mais plástica das comédias. – Veja-se, por exemplo, Faucher e Szeliga.
– O “Jornal Literário” oferece um material à luz do qual também o grande
público poderá ser informado a respeito das ilusões da filosofia especulativa.
E é essa a finalidade do nosso trabalho.
Nossa
exposição naturalmente é condicionada por seu objeto. Em regra, a
Crítica crítica se encontra abaixo das alturas alcançadas pelo
desenvolvimento teórico alemão. A natureza de nosso objeto justifica, portanto,
o fato de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento.
A
Crítica crítica obriga, muito antes, a mostrar a validade dos resultados já
disponíveis como tais, opondo-os aos resultados que ela alcançou.
É
por isso que antepomos essa polêmica aos escritos propriamente ditos, nos quais
nós – cada um por si, entenda-se[3]
– haveremos de expor nossa visão positiva, e com ela nossa atitude positiva
ante as novas doutrinas filosóficas e sociais.
Paris, setembro
de 1844.
Engels – Marx
[1] Em alemão Allgemeine Literatur-Zeitung,
órgão mensal, editado pelo hegeliano Bruno Bauer em Charlotemburgo – Berlim –
entre dezembro de 1843 e outubro de 1844. (N. do T.)
[2] Em alemão: “kritische Kritik”. Para
diferenciar o substantivo do adjetivo – em português ambos são escritos de
maneira exatamente igual, ao contrário do que acontece no alemão –, manteremos
o primeiro em caixa alta. Além da diferença, estará sendo mostrada a ênfase
especial e a análise diferenciada – e crítica – que Marx e Engels dão à Crítica
de Bruno Bauer e seus consortes. (N. do T.)
[3] A autoria específica dos artigos aparece
definida no ÍNDICE. A sagrada família é o resultado do trabalho conjunto
de Marx e Engels e foi encaminhada a partir do segundo encontro dos dois
pensadores, em agosto de 1844, na cidade de Paris. A contribuição de Marx é bem
maior – e a avaliação é apenas volumétrica – que a de Engels, e reúne suas
anotações acerca dos Manuscritos econômico-filosóficos bem como suas
anotações acerca da Revolução Francesa. O livro é – descontadas as duas
contribuições de Marx aos Anais franco-alemães (Deutsch-Französische
Jahrbücher), quais sejam: “Crítica da filosofia do direito de Hegel.
Introdução” e “Sobre a questão judaica” – o único escrito rigorosamente
filosófico do período precoce publicado pela intervenção direta dos autores.
Obras como os Manuscritos de Paris (Pariser Manuskripte), Sobre a
crítica do Estado de Direito hegeliano (Zur Kritik des Hegelschen
Staatsrechts, 1843, publicada apenas em 1927), de Marx, ou até mesmo A
ideologia alemã (Deutsche Ideologie, 1846, publicada apenas em 1932), que
os dois também escreveram juntos, seriam publicadas apenas postumamente. A
sagrada família apareceria já em fins de fevereiro de 1945. (N. do T.)