I

 

 

Tradução de Marcelo Backes

 

 

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.[1] Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.

“O que terá acontecido comigo?” ele pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um quarto humano[2] direito, apenas um pouco pequeno demais, encontrava-se silencioso entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotada, uma coleção de amostras de tecido – Samsa era caixeiro-viajante –, estava a imagem que ele havia recortado havia pouco de uma revista ilustrada e posto numa moldura bonita e dourada. Ela mostrava uma dama que, escondida num chapéu de pele e numa estola de pele, sentava ereta e levantava aos espectadores um regalo[3] também de pele, dentro do qual sumia todo seu antebraço.

O olhar de Gregor dirigiu-se então para a janela, e o tempo nublado –ouviam-se os pingos da chuva baterem sobre a calha da janela – deixou-o bastante melancólico. “Que tal se eu seguisse dormindo mais um pouco e esquecesse de toda essa bobajada”,[4] pensou; mas isso era totalmente irrealizável, uma vez que estava habituado a dormir sobre o lado direito e em seu estado atual não conseguia se colocar nessa posição. Por mais força que fizesse na tentativa de se jogar para o lado direito, balançava voltando sempre a ficar na posição de costas. Deve ter tentado fazê-lo cerca de cem vezes; fechou os olhos a fim de não precisar ver mais suas pernas se debatendo, e apenas desistiu quando passou a sentir no lado uma dor leve e sombria, que jamais havia sentido.

“Oh, Deus”, pensou ele, “que profissão extenuante[5] que fui escolher! Entra dia, sai dia, e eu sempre de viagem. As agitações do negócio são muito maiores do que propriamente o trabalho em casa, e ainda por cima impuseram sobre mim essa praga de ter de viajar, os cuidados com as conexões de trem, a comida ruim e desregulada, contatos humanos sempre cambiantes, que nunca serão duradouros e jamais afetuosos. Que o diabo leve tudo isso!” Sentiu um leve comichão acima, sobre o ventre, deslocou-se devagar sobre as costas, aproximando-se da guarda da cama, a fim de poder levantar melhor a cabeça; encontrou o lugar que comichava; ele mostrava-se tomado por uma série de pontinhos brancos e pequenos, que ele não logrou avaliar donde vinham; quis tocar o local com uma das pernas, mas logo puxou-a de volta, pois o contato lhe dava calafrios.

Deslizou até voltar à sua posição anterior. “Esse acordar cedo”, pensou ele, “faz a gente ficar meio abobado. O homem tem de ter seu sono. Outros viajantes vivem como mulheres de harém. Quando eu, por exemplo, volto ao hotel pouco antes do meio-dia, a fim de transcrever as encomendas feitas, esses senhores recém estão tomando seu café. Queria ver se eu tentasse proceder assim com meu chefe; iria para a rua na mesma hora. Aliás, quem sabe se isso não seria bom para mim. Se eu não me contivesse por causa de meus pais, já teria pedido as contas há tempo; teria me apresentado ao chefe e lhe exposto direitinho o que penso, do fundo do meu coração. Ele teria de cair da escrivaninha! É um jeito bem peculiar o dele, de sentar-se sobre a escrivaninha e falar do alto abaixo com seu empregado, que além do mais tem de se aproximar bastante por causa das dificuldades auditivas do chefe. Bem, a esperança ainda não está de todo perdida; quando eu tiver juntado o dinheiro a fim de quitar a dívida de meus pais com ele – acho que isso demorará ainda uns cinco ou seis anos –, eu encaminho a coisa sem falta. Aí então terá sido feito o grande corte.[6] Por enquanto, em todo caso, tenho de levantar, pois meu trem sai às cinco.”

 

 



[1] N’O processo Kafka diria: “o instante do despertar é o instante mais perigoso do dia.” Ademais, em várias de suas cartas a Felice o autor refere o fato de se sentir completamente estranho ao acordar pela manhã. Em seus Diários Kafka faz várias referências no sentido de que “O animal está mais próximo de nós do que o homem”, por exemplo. (N. do T.)

[2] O narrador utiliza a forma “quarto humano” do mesmo jeito que se utiliza a forma corrente “quarto de criança” e certamente em oposição ao presente aspecto animal de Gregor. Com a expressão taxativa: “Não era um sonho.” – que é tanto mais taxativa na medida em que a frase normal de Kafka é extensíssima, cheia de subordinações, vírgulas e partículas conectivas – o narrador pretende arrancar, desde logo, o aspecto onírico da situação. (N. do T.)

[3] Regalo, aqui, no sentido de luva que possui apenas duas divisões, uma para o polegar, outra para o resto dos dedos. Em geral é feita de pele e muito usada nos países frios. (N. do T.)

[4] Tentativa “racionalizante” de fuga à realidade – que logo é refutada por um dado concreto – típica das histórias do gênero e já manifestada, entre outros, pelo personagem Goliádkin, de O duplo de Dostoiévski, narrativa com a qual A metamorfose guarda grandes semelhanças, sobretudo no início. Outras narrativas que poderiam ter influenciado Kafka, e que comprovadamente ele leu antes de escrever A metamorfose, são O Capote e O nariz de Gogol. (N. do T.)

[5] Outra afinidade entre Kafka e Samsa, nomes que aliás correm paralelos e poderiam ser referidos como criptogramas. Kafka negou o fato dizendo que Samsa não era, de todo, Kafka: “A metamorfose não é uma confissão, ainda que – em certo sentido – seja uma indiscrição”, ele disse. (Conversações de Gustav Janouch com Kafka, 1920-23). Mais tarde Kafka comentaria que havia falado “dos percevejos de sua família” na obra. (N. do T.)

[6] Kafka usa de fato o termo “corte” como se só uma secção ativa (semelhante a do cordão umbilical) pudesse afastar Gregor do emprego que ele tanto odiava, mas ao qual se sentia tão preso. (N. do T.)