CAPÍTULO PRIMEIRO
A bagana apagada de Churchill
Tradução de Marcelo Backes
A vida oferece oportunidades incontáveis para uma pessoa revelar o próprio endereço, e Michael Kuppisch, que morava na Alameda do Sol, em Berlim, sempre voltava a experimentar que a Alameda do Sol era capaz de provocar emoções pacíficas, e até mesmo sentimentais. Segundo a experiência de Michael Kuppisch, a Alameda do Sol atua justamente em momentos de incerteza e até mesmo em situações de tensão. Mesmo saxões hostis quase sempre se tornavam amistosos quando ficavam sabendo que tratavam com um berlinense, morador da Alameda do Sol. Michael Kuppisch era capaz de imaginar com facilidade que também na Conferência de Potsdam, no verão de 1945, quando Josef Stálin, Harry S. Truman e Winston Churchill dividiram a ex-capital do Reich em setores, a menção da Alameda do Sol tenha causado algum efeito. Sobretudo junto a Stálin; ditadores e déspotas são, conforme se sabe, predestinados a se tornar vítimas de suspiros poéticos. Stálin não quis deixar a rua com o nome tão belo de Alameda do Sol cair nas mãos dos americanos, pelo menos não inteira. De modo que expôs suas reivindicações a Harry S. Truman no que diz respeito à Alameda do Sol – reivindicações que naturalmente foram rejeitadas por este. Mas Stálin não deixou por menos e bem rápido a coisa esteve a ponto de descambar para as vias de fato. Quando as pontas dos narizes de Stálin e de Truman estavam quase se tocando, o premiê britânico se meteu entre os dois, separou-os e pôs-se, ele mesmo, diante do mapa de Berlim. À primeira vista percebeu que a Alameda do Sol tinha mais de quatro quilômetros de extensão. Churchill estava tradicionalmente ao lado dos americanos, e qualquer pessoa naquela sala considerava impossível que ele cedesse a Alameda do Sol a Stálin. E, conforme o que todo mundo conhecia de Churchill, ele iria dar uma tragada em seu charuto, refletir por um momento, em seguida soprar a fumaça, balançar a cabeça e passar ao ponto seguinte da negociação. Mas quando Churchill tragou em sua bagana, percebeu, aborrecido, que ela tinha se apagado mais uma vez. Stálin foi tão solícito em lhe alcançar fogo, que, enquanto gozava sua primeira tragada e se inclinava sobre o mapa de Berlim, Churchill refletiu como poderia retribuir de maneira adequada o gesto de Stálin. Quando Churchill voltou a soprar a fumaça, deu a Stálin uma pontinha de sessenta metros da Alameda do Sol e mudou de tema.
Deve ter acontecido assim, pensou Michael Kuppisch. Pois, do contrário, como é que uma rua tão longa ainda poderia ser dividida pouco antes do final? E às vezes ele também pensava: “Se o estúpido do Churchill tivesse cuidado melhor de seu charuto, nós hoje viveríamos no lado ocidental”.
Michael Kuppisch sempre buscava explicações, pois demasiadas vezes se vira confrontado com coisas que não lhe pareciam normais. O fato de morar em uma rua cujo número mais baixo era o 379 – ele sempre ficava admirado com isso. Assim também ele não lograva se acostumar com a humilhação cotidiana que consistia em ser cumprimentado com risos de zombaria da torre de controle do lado ocidental, quando punha os pés para fora de sua casa – turmas inteiras lançavam apupos, assoviavam e gritavam: “Olha só, esse é um comuna de verdade!” ou “Ei, comuna, dá um tchauzinho, que nós queremos bater uma foto!”. Mas todas essas excentricidades não eram nada se comparadas com a experiência quase inacreditável de sua primeira carta de amor, que foi carregada pelo vento até a faixa mortal e lá ficou caída – antes mesmo de ele conseguir lê-la.