Carta ao pai

 

Tradução de Marcelo Backes

 

 

Schelesen

 

 

Querido pai,[1]

 

Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. E se procuro responder-te aqui por escrito, não deixará de ser de modo incompleto, porque também no ato de escrever o medo e suas conseqüências me atrapalham diante de ti e porque a grandeza do tema ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.

Para ti a questão sempre se apresentou bem simples, pelo menos enquanto falaste dela diante de mim e, sem cuidar a quem, diante de muitos outros. Para ti as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhaste pesado durante tua vida inteira, sacrificaste tudo pelos teus filhos, e sobretudo por mim, enquanto eu “vivi numa boa” por conta disso, gozei de toda a liberdade para estudar o que bem quisesse, não precisei ter nenhuma preocupação com meu sustento e portanto nenhuma preocupação, fosse qual fosse;[2] não exigiste gratidão em troca disso, tu conheces “a gratidão de teus filhos”, mas pelo menos um pouco de boa vontade, algum sinal de simpatia;[3] ao invés disso eu sempre me encafuei[4] de ti em meu quarto, com meus livros, com amigos malucos, com idéias extravagantes; falar de maneira aberta contigo eu jamais falei, no templo[5] jamais fui ao teu encontro, em Franzensbad jamais te visitei e aliás jamais tive senso de família, não me importei com o negócio nem com teus demais assuntos, a fábrica eu joguei às tuas costas e depois te abandonei,[6] apoiei Ottla em sua teimosia e, enquanto não movo um dedo por tua causa (nem sequer uma entrada de teatro eu trago a ti), faço tudo por estranhos.[7] Se resumires teu veredicto a meu respeito, te darás conta de que não me acusas de nada indecoroso ou mau, é verdade (excetuado talvez meu último propósito de casamento), mas sim de frieza, estranheza, ingratidão. E tu me acusas de tal modo, como se fosse culpa[8] minha, como se eu pudesse, com uma guinada no volante, por exemplo, conduzir tudo para outra direção, ao passo em que tu não tens a menor culpa a não ser[9] talvez pelo fato de ter sido demasiado bom para comigo.

Essa tua maneira usual de ver as coisas eu só considero certa na medida em que mesmo eu acredito que não tenhas a menor culpa em nosso alheamento. Mas também eu não tenho a menor culpa. Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possível, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais – mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações.

Curiosamente tu tens alguma noção a respeito daquilo que estou querendo dizer. Assim, por exemplo, disseste há algum tempo: “eu sempre gostei de ti, mesmo que na aparência eu não tenha te tratado como outros pais costumam tratar seus filhos, justamente porque não sei fingir como eles”. Ora pai, no que diz respeito a mim, jamais cheguei a duvidar de tua bondade para comigo, mas considero esta observação incorreta. Tu não consegues fingir, é verdade, mas afirmar, apenas por esse motivo, que os outros pais fingem é ou pura mania de mostrar razão a fim de acabar com a discussão ou – e é isso que de fato acontece, na minha opinião – a expressão disfarçada de que as coisas entre nós não estão em ordem e de que tu ajudaste a provocá-las, mas sem culpa. Se de fato pensas assim, então estamos de acordo.

Naturalmente não quero dizer que me tornei o que sou apenas através da tua ascendência. Isso seria por demais exagerado (e eu até me inclino a esse exagero). É bem possível que eu, mesmo se tivesse crescido totalmente livre da tua influência, não pudesse me tornar um ser humano na medida em que o teu coração o desejava. É provável que mesmo assim eu me tornasse um homem débil, amedrontado, hesitante, inquieto, nem um Robert Kafka nem um Karl Hermann, mas de todo diferente do que hoje sou, e nós poderíamos suportar um ao outro de forma maravilhosa. Eu teria sido feliz em ter a ti como amigo, como chefe, como tio, como avô, até mesmo (embora já mais hesitante) como sogro. Mas justamente como pai tu foste demasiado forte para mim, sobretudo porque meus irmãos morreram ainda pequenos,[10] minhas irmãs só vieram muito depois e eu tive, portanto, de suportar por inteiro e sozinho o primeiro golpe, e para isso eu era fraco demais.



[1] No manuscrito, Kafka se dirige ao pai com a expressão Liebster Vater. Liebster é o superlativo sintético absoluto de Lieber (querido), usado correntemente nas cartas entre conhecidos. Na versão datilografada – bem mais tardia – do texto, Kafka usa apenas Lieber Vater e não indica o lugar em que escreveu a carta: Schelesen, distante 60 quilômetros, junto ao Rio Elba, ao norte de Praga, onde chegou em 4 de novembro de 1919. Essas são as únicas diferenças fundamentais entre a versão manuscrita e a versão datilografada da carta. O fato de ter datilografado a carta, depois de não tê-la entregue nem ao pai, nem a Milena – conforme prometera – parece evidenciar que Kafka passou, com o tempo, a valorizar sobretudo o caráter literário da Carta. (N. do T.)

[2] Em carta de 30 de dezembro de 1917 à irmã Ottla, Kafka esclarece ainda mais seu ponto de vista: “ele não conhece outra prova que não a da fome, da falta de dinheiro e talvez ainda da doença; reconhece que nós ainda não passamos pelas primeiras, que sem dúvida são difíceis e por isso se dá ao direito de nos proibir a liberdade de usar a palavra.” (KAFKA, Franz: Briefe an Ottla und die Familie. Org. por Hartmut Binder e Klaus Wagenbach. Frankfurt a. M. 1974, p. 50). Quanto ao medo do pai, referido anteriormente, Kafka já o anunciara bem cedo, em carta a Felice Bauer: “Eu já te disse alguma vez que admiro meu pai? Que ele é meu inimigo e eu o dele, conforme nossas naturezas o determinaram, isso tu sabes, mas além disso minha admiração por sua pessoa talvez seja tão grande quanto meu medo diante dele.” (KAFKA, Franz: Briefe an Felice und andere Korrespondenz aus der Verlobungszeit. Org. por Erich Heller e Jürgen Born, Frankfurt a. M. 1967, p. 452). (N. do T.)

[3] Nos diários Kafka escreve: “Os pais que esperam gratidão de seus filhos (inclusive os há que a exigem) são como agiotas; eles até gostam de arriscar seu capital, contanto que recebam juros por ele”. (KAFKA, Franz: Tagebücher 1910-1923. Org. por Max Brod. New York e Frankfurt a. M. 1951, p. 443). (N. do T.)

[4] O verbo usado por Kafka é sich verkriechen que significa “esconder-se”, mas é uma variação prefixada do verbo kriechen (rastejar), usado constantemente para descrever os movimentos do inseto de A metamorfose (Die Verwandlung). As “idéias extravagantes” referidas a seguir provavelmente sinalizem para os trabalhos de jardinagem de Kafka, que voltarão – mais uma vez tangencialmente – a ser referidos mais tarde. (N. do T.)

[5] Exatamente aqui, no manuscrito da Carta, Kafka faz uma inserção a lápis (ver ILUSTRAÇÃO com as páginas iniciais e finais do manuscrito no Prefácio, marcação 1), que não pertence ao texto da carta em si, mas é destinada a comentá-la antes do envio a Milena – coisa que não aconteceu, ao final das contas. O trecho diz o seguinte, e a primeira parte da frase aparece riscada: “Isso é dever da criança, eu bem quis escrever tais esclarecimentos, Milena, mas eu não consigo me superar a ponto de ler a carta mais uma vez para fazê-lo; a questão principal fica, mesmo assim, compreensível.”. (N. do T.)

[6] Quando diz “fábrica”, Kafka refere-se à fábrica de asbesto de Karl Hermann, cunhado do escritor (ver GLOSSÁRIO, com mais detalhes); quando fala em “negócio”, refere-se à loja do pai, um armarinho em que eram vendidas linhas, tecidos e quinquilharias; há várias passagens nos Diários que deixam claro que Kafka, ao contrário do que é dito no trecho, se preocupava com a loja do pai e que inclusive chegava a abri-la e fechá-la quando os pais faziam férias em Franzensbad, no verão. Quando a loja passou por dificuldades financeiras – coisa que é referida mais tarde –, Kafka deu todo o apoio que pôde a seu pai. (N. do T.)

[7] Kafka escreve Fremde (estranhos) e não Freunde (amigos) (ver ILUSTRAÇÃO, marcação 2), conforme a leitura de Max Brod – ele baseou-se apenas na versão datilografada da Carta e desconhecia a existência de um original manuscrito completo da mesma –, que levou junto consigo todos os tradutores antigos de Kafka. (N. do T.)

[8] Culpa (Schuld) (ver ILUSTRAÇÃO, marcação 3) é a única palavra que aparece sublinhada no manuscrito inteiro da Carta ao pai. O “último propósito de casamento” – citado anteriormente – refere-se à tentativa de casar com Julie Wohryzek (ver GLOSSÁRIO). (N. do T.)

[9] Por descuido, Kafka repete, no manuscrito, o verbo “wäre”: “es wäre / wäre denn die, dass Du...” (ver ILUSTRAÇÃO) Kafka volta a repetir involuntariamente algum verbete – normalmente em quebra de linha, como no caso anterior, ou em quebra de página – no decorrer da carta. (N. do T.)

[10] Kafka nasceu – lembremos – em 3.7.1883. Georg nasceu em 11.9.1885 e morreu, vítima de sarampo, aos seis meses de idade. Heinrich nasceu em 27.9.1887 e morreu de meningite com um ano e meio. Elli nasceria em 22.9.1889, Valli em 25.9.1890 e Ottla em 29.10.1892. (N. do T.)