1

 

 

Tradução de Marcelo Backes

 

 

— Senhor tenente!... Senhor tenente!... Senhor tenente!...

Somente depois da terceira chamada é que o jovem oficial se mexeu, espreguiçou-se, e voltou a cabeça para a porta; ainda sonolento, resmungou dos travesseiros:

— O que há?

Em seguida, já um pouco mais lúcido, ao ver que era apenas o ordenança quem estava parado junto à porta, envolvido pela meia-luz do amanhecer, ele gritou:

— Com todos os demônios, mas o que é que há assim tão cedo?

— Há um senhor lá embaixo, no pátio, que quer falar convosco, senhor tenente.

— Como assim, um senhor? Mas que horas são agora? Eu por acaso não havia vos dito que não queria ser acordado no domingo?

O ordenança aproximou-se da cama e entregou a Wilhelm um cartão de visitas.

— Pensais que eu sou uma coruja, senhor cabeça-de-bagre, e posso ler na escuridão? Abrir!

Antes mesmo de a ordem ter sido dada, Joseph havia aberto as folhas internas da janela, puxando para o alto a cortina branca e suja. O tenente, soerguendo-se na cama, quis ler o nome escrito no cartão, deitou-o sobre a coberta, contemplou-o mais uma vez, alisou seu cabelo loiro – cortado curto e matinalmente esgrouviado – e ponderou de repente:

— Desviar-me dele?... Impossível!... E na verdade nem há motivo para tanto. O fato de a gente receber alguém não quer dizer, necessariamente, que se tem relações com ele. Aliás, ele teve de renunciar ao cargo apenas devido às dívidas. Outros costumam ter mais sorte. Mas o que será que ele quer de mim?

E voltou a dirigir-se ao ordenança:

— Mas e qual é a cara do senhor primeiro-ten... do senhor Bogner?

O ordenança respondeu com um sorriso largo, algo triste:

— Com vossa permissão, senhor tenente, o uniforme dava melhor cara ao senhor primeiro-tenente.

Wilhelm ficou em silêncio por um instante e em seguida sentou-se, ereto, sobre a cama:

— Pois então, eis a minha ordem. Que o senhor... primeiro-tenente tenha a bondade de desculpar o fato de eu ainda não estar vestido e pronto a recebê-lo... E, escutai bem... Se, em todo caso, algum dos outros senhores, o primeiro-tenente Höchster, o tenente Wengler, o senhor capitão, ou quem quer que seja, perguntar por mim... eu não estou mais em casa... Entendido?

Enquanto Joseph fechava a porta atrás de si, Wilhelm vestiu o dólmã blusa às pressas, arrumou seu penteado usando a escova, foi até a janela e olhou para baixo, em direção ao pátio da caserna, ainda vazio e silencioso; quando viu o antigo camarada passear para lá e para cá, de cabeça baixa, com o chapéu duro e preto apertado à testa, vestindo um sobretudo amarelo aberto e sapatos um tanto empoeirados, quase chegou a sentir dor no coração.

Abriu a janela, estava prestes a acenar para ele, cumprimentá-lo em voz alta. Mas nesse exato momento o ordenança acabava de aproximar-se daquele que esperava e Wilhelm percebeu nas feições apreensivamente contraídas do velho amigo a excitação com que ele aguardava a resposta. E como ela terminou sendo favorável, o rosto de Bogner desanuviou-se e ele sumiu com o ordenança no portão sob a janela de Wilhelm, que agora a trancava, como se a conversa que estava prestes a ter exigisse tal precaução. Eis que de repente o cheiro do mato e da primavera – que em tais horas matinais domingueiras costumava se apresentar no pátio da caserna e, por incrível que pareça, jamais se fazia perceptível durante os dias da semana – voltava a desaparecer de vez. “Aconteça o que acontecer...”, pensou Wilhelm, “sim, mas o que poderá acontecer?!... Eu vou hoje a Baden sem falta e almoço no ‘Cidade de Viena’... se é que não me convidam, como aconteceu há dias, para tomar a refeição na casa dos Kessner.”

— Entre! — E mostrando uma vivacidade completamente excessiva, Wilhelm estendeu a mão ao que entrava. — Deus te abençoe, Bogner. Me sinto feliz de verdade pelo fato de estares aqui. Não queres tirar o sobretudo? Sim, olha só; tudo está como era antes. Mais arrumado o lugar também não ficou. Todavia, havendo espaço, também a mais pequena das cabanas pode nos fazer...

Otto sorriu gentilmente, como se percebesse o constrangimento de Wilhelm e quisesse ajudá-lo a livrar-se dele.

— Espero que o ditado por vezes calhe melhor à pequena cabana do que nesse momento — disse ele.

Wilhelm riu mais alto do que seria necessário.

— É lamentável, mas não é o que acontece no mais das vezes. Levo uma vida bem ordinária. Posso te garantir que já fazem pelo menos seis semanas que um pé feminino não pisa neste quarto. Estou mais platônico do que Platão. Mas tome assento. — Ele recolheu algumas peças de roupa deitadas num sofá, pondo-as sobre a cama. — Posso te convidar, talvez, para um café?

— Obrigado, Kasda, não quero incomodar. Já tomei café... Um cigarro, se não tiveres nada contra...

Wilhelm não permitiu que Otto se servisse de sua própria cigarreira e apontou uma mesinha, onde havia um maço de cigarros. Wilhelm deu-lhe fogo, Otto fez uma careta, em silêncio, e seu olhar caiu sobre a imagem conhecida, pendurada na parede, sobre o divã de couro preto, que apresentava uma corrida de obstáculos entre oficiais, acontecida em tempos que já iam longe.

— Pois bem, conte-me agora — disse Wilhelm, — como é que tens passado? Por que é que não se ouve mais nadica de nada a respeito de ti?... Quando nos dissemos adeus... há dois ou três anos... tu me prometeste que de tempos em tempos...

Otto interrompeu-o:

— Talvez no fundo tenha sido melhor eu não ter falado nada de mim a ninguém, nem apresentado as caras, e com certeza também teria sido melhor se não fosse necessário eu aparecer hoje por aqui. — E, de um modo absolutamente surpreendente para Wilhelm, ele sentou-se num dos cantos do sofá; no canto oposto havia alguns livros revirados: — Pois tu podes bem imaginar, Willi — ele falava de maneira precipitada e aguda ao mesmo tempo, — que minha visita de hoje, em hora tão imprópria... Sei bem que gostas de dormir até tarde aos domingos... Que essa visita naturalmente tem um objetivo, pois caso contrário eu naturalmente não me concederia a permissão... Curto e grosso, eu venho apelar à nossa velha amizade... à nossa camaradagem, isso é lamentável, eu não posso mais dizer. Não precisas ficar pálido, Willi, nem é tão perigoso assim; trata-se apenas de um punhado de florins, que eu tenho de ter em mãos até amanhã cedo, pois de outra maneira não me restará nada a fazer a não ser — sua voz elevou-se adquirindo entonação militar — me... coisa que talvez já tivesse sido a atitude mais sensata há dois anos.

— Mas o que é que estás a falar aí — disse Wilhelm, num tom que mostrava uma indignação amigável e ao mesmo tempo constrangida.

O ordenança trouxe o café da manhã e voltou a sumir. Willi serviu-se. Sentiu um gosto amargo na boca e achou desagradável o fato de sequer ter feito, ainda, o toalete matinal. Aliás, ele havia se decidido a tomar uma sauna no caminho até a estação de trem. Seria mais do que satisfatório se ele conseguisse chegar até o meio-dia em Baden. Não tinha nenhum compromisso estabelecido; e caso ele se atrasasse, sim, até mesmo se nem chegasse a ir, nenhuma pessoa haveria de se importar de maneira especial por causa disso; nem os senhores do Café Schopf, nem mesmo a senhorita Kessner. Talvez a mãe dela, que aliás também não era nada feia, fosse quem mais se importasse.

— Por favor, podes te servir — disse ele a Otto, que ainda não havia levado sua chícara aos lábios. Então este tomou um gole à pressas e principiou logo a seguir:

— Para ser breve, tu talvez saibas que estou empregado como caixa num escritório de instalações elétricas há três meses. Mas de onde deverias ficar sabendo disso? Tu sequer sabes que estou casado e tenho um menino... de quatro anos. Na verdade ele já chegara ao mundo quando eu ainda estava na tropa. Ninguém sabia disso. Pois bem, não posso dizer que a coisa andou às mil maravilhas comigo durante esse tempo todo. Podes bem fazer idéia do que estou dizendo. Em especial no inverno passado, o menino estava doente – bom, os detalhes não haverão de te interessar – e por algumas vezes eu tive de emprestar algum dinheiro ao caixa. Sempre voltava a pagá-lo em tempo. Mas da última vez a quantia foi um pouco maior, lamentavelmente, e... — ele manteve-se calado por um instante, enquanto Wilhelm mexia com a colher em sua xícara — ...e o pior de tudo é que na segunda-feira, amanhã, portanto, conforme vim a saber por acaso, vai haver uma revisão geral na firma. É que nós somos uma filial, compreendes, e são montantes bem desprezíveis os que nós movimentamos; sim, e na realidade vem a ser apenas uma bagatela o valor que estou devendo... novecentos e sessenta florins. Eu poderia dizer mil e seria bem mais fácil, além de arredondado. Mas são novecentos e sessenta. E eles têm de estar lá amanhã bem cedo, antes das oito e meia, caso contrário... sim, que fazer... Tu me farias de fato um imenso favor, provando tua amizade, Willi, se pudesses fazer com que essa soma me...

De repente ele não conseguiu mais seguir adiante. Willi chegou a sentir vergonha por ele, não por causa do pequeno desfalque – ou fraude, pois era esse o nome que a atitude merecia – que o velho camarada havia cometido, mas muito antes porque o ex-primeiro-tenente Otto von Bogner – ainda há alguns anos um oficial amável, bem-posto e arrojado – se recostava pálido e sem compostura no canto do divã, sem lograr prosseguir adiante em sua fala devido às lágrimas engolidas.

Ele deitou a mão sobre seu ombro.

— Vá lá, Otto, não é preciso perder logo a continência — e como o outro, depois dessa intervenção não muito encorajadora, levantou a cabeça em direção a ele, mostrando um olhar sombrio, quase assustado, — eu mesmo na verdade estou quase seco, por assim dizer. Todas as minhas posses se restringem a pouco mais de cem florins. Cento e vinte, para ser exatamente tão preciso quanto tu foste antes. Eles estão a tua inteira disposição, até o último cruzado.[1] Mas se nós nos esforçarmos um poucochinho haveremos de chegar a uma solução.

Otto interrompeu-o.

— Podes ter certeza que todas as outras... maneiras... já foram repassadas uma a uma. Não precisamos perder tempo, portanto, quebrando nossa cabeça em vão; sobretudo porque eu já venho com uma determinada sugestão, pronta...

Wilhelm olhou-o nos olhos, curioso.

— Imagina que tu mesmo estás metido numa embrulhada dessas... O que haverias de fazer?

— Não consigo entender onde queres chegar — observou Wilhelm, esquivando-se.

— Naturalmente sei muito bem que jamais meterias a mão em caixa estranha... Uma coisa dessas só pode acontecer a um civil. Sim. Mas, enfim, ainda que por um motivo menos criminoso, se um dia necessitasses com urgência de uma determinada soma, a quem haverias de apelar?

— Desculpa-me, Otto, mas nunca pensei a respeito disso, e ademais espero que... Também tive as minhas dívidas algumas vezes, não posso negá-lo; inclusive no mês passado o Höchster me deu uma mão, emprestando-me cinqüenta florins, que eu naturalmente lhe devolvi na primeira oportunidade. É até por causa disso que me encontro no aperto em que estou. Mil florins, no entanto, mil... eu não teria a menor idéia de como poderia arranjá-los.

— Não mesmo? — disse Otto, e cravou os olhos nele.

— Se é o que te digo.

— E o teu tio?

— Que tio?

— Teu tio Robert.

— Mas como... como é que chegas ao nome dele?

— Me parece bastante óbvio. Ele te ajudou algumas vezes. Chegaste a receber dele até mesmo um abono regular.

— Já faz tempo que esse abono chegou ao fim — replicou Willi, aborrecido com o tom nem um pouco medido do antigo camarada. — E não apenas o abono. Tio Robert tornou-se um esquisitão. A verdade é que já não o vejo há mais de um ano. E quando o procurei por causa de uma insignificância na última vez... fazendo uma exceção... ele foi capaz de me botar porta afora.

— Hmmm, então é assim. — Bogner coçou a testa. — De modo que consideras essa possibilidade absolutamente fora de cogitação?

— Espero que não tenhas nenhuma dúvida a respeito disso — replicou Wilhelm, com algum rigor.

De repente Bogner se levantou do canto do sofá onde estava, empurrou a mesinha para o lado e foi até a janela.

— Temos de tentá-lo — esclareceu ele, então, com firmeza. — Sim, claro, perdoa-me, mas temos de tentá-lo. O pior que pode te acontecer é ele dizer não. E talvez até de um modo não de todo gentil. Mas em comparação àquilo que está prestes a acontecer comigo, caso eu não arranjar esse miserável punhado de florins até amanhã cedo, isso tudo não é mais do que um pequeno transtorno.

— Até pode ser — disse Wilhelm, — mas em todo caso um transtorno completamente infundado. Se houvesse uma chance, por mínima que fosse... Claro que, pelo menos é o que espero, tu não estás duvidando da minha boa vontade. E, com os diabos, devem haver ainda outras possibilidades. Que dizes, por exemplo, e não me leve a mal, de teu primo Guido, que tem aquela propriedade em Amsterdã?

— Poderias bem imaginar, Willi — replicou Bogner, calmo, — que dali também não sai nada. Caso contrário eu não estaria aqui. Curto e grosso, não há sequer uma única pessoa em todo o mundo...

Willi levantou um dedo, de repente, como se tivesse tido uma idéia. Otto fitou-o, cheio de esperança.

— O Rudi Höchster... E se tentasses conseguir o dinheiro com ele? Olha que ele tomou posse de uma herança há alguns meses. Vinte ou vinte cinco mil florins. Deve ter sobrado alguma coisa disso tudo.

Bogner franziu a testa e replicou algo vacilante:

— Ao Höchster eu já havia escrito... há três semanas, quando a questão ainda não era tão urgente... pedindo bem menos do que mil florins emprestados... Ele sequer dignou-se a responder-me. De modo que podes ver bem que só existe uma saída: teu tio. — E quando Willi deu de ombros: — Eu o conheço muito bem, Willi... É um senhor tão charmoso e amável. Nós chegamos a ir juntos ao teatro um punhado de vezes, e também ao Riedhof... Com certeza ele irá lembrar-se de mim! Sim, pelo amor de Deus, ele não haverá de ter se tornado um outro homem, completamente diferente, de uma hora para a outra.

Willi interrompeu-o, impaciente.

— É o que parece, no entanto. Nem eu mesmo sei bem o que aconteceu com ele. Mas é o que às vezes acontece entre os cinqüenta e os sessenta anos; as pessoas mudam tanto e de modo tão estranho. Não posso te dizer mais do que isso: há quinze meses, talvez mais, não ponho meus pés em sua casa e... curto e grosso... não voltarei a fazê-lo, aconteça o que acontecer; jamais.

Bogner fitou o chão à sua frente. Em seguida levantou a cabeça, de inopino, fixou os olhos em Willi de maneira ausente e disse:

— Pois bem, eu te peço desculpas, e fique com Deus. — Tomou o chapéu e voltou-se para a porta.

— Otto! — chamou Willi. — Eu teria mais uma idéia.

— Mais uma é boa.

— Pois bem, escuta, Bogner. Vou ainda hoje ao campo... a Baden. Ali, no Café Schopf, jogam de vez em quando, aos domingos, uma partidinha: vinte-e-um ou bacará, depende. Naturalmente a minha participação na roda é bastante humilde, quando participo. Devo ter me sentado à mesa com eles cerca de três ou quatro vezes, se tanto, mas apenas para me divertir. O principal entre eles é Tugut, o médico do regimento; Tugut, que aliás é um leiteiro e tanto; o primeiro-tenente Wimmer também costuma participar, e também há o Greising, que é do Setenta e Sete... Mas esse tu não deves conhecer. Ele está fora, em tratamento... por causa de uma velha história; também há alguns civis, um advogado de fora, o secretário do teatro, um ator e um velho senhor, um tal de cônsul Schnabel.[2] Este tem um caso por lá, com uma cantora de opereta e, na verdade, mais corista do que cantora. Esse é a fonte donde todos bebem. Só o Tugut arrebanhou dele não menos de três mil florins, de uma só vez, há duas semanas. Jogamos até as seis da manhã sobre a varanda aberta, ouvindo os pássaros cantarem, acompanhando o jogo; os cento e vinte que eu hoje ainda tenho, aliás, agradeço-os à minha persistência, pois caso contrário estaria completamente seco. Pois bem, Otto, saiba que vou arriscar cem dos cento e vinte em favor de tua causa. Sei que a chance não é avassaladora, mas o Tugut há alguns dias sentou-se à mesa com apenas cinqüenta, e levantou-se dela com três mil. E olha que ainda há algo mais: faz alguns meses que não tenho a mínima sorte no amor. Portanto, talvez devamos confiar mais nos provérbios do que nas pessoas.

Bogner permaneceu calado.

— E então... O que pensas a respeito da minha idéia? — perguntou Willi.

Bogner deu de ombros.

— Eu te agradeço muito, em todo caso.... Claro que não digo não... ainda que...

— Garantir evidentemente eu não posso — interrompeu-o Willi, com exagerada vivacidade, — mas também não arriscarei muito, ao final. E se eu ganhar... daquilo que eu ganhar mil pertencem a ti... pelo menos mil pertencem a ti. E se por acaso a bolada ganha viesse a ser maior, especial...

— Não prometa demais — disse Otto com um sorriso sombrio. — Mas agora não quero mais ficar aqui te importunando. Até mesmo eu não tenho mais tempo. E amanhã cedo permitir-me-ei... ou melhor, ficarei esperando amanhã cedo, às oito e meia, lá, em frente da Igreja de Alser. — E com uma risada amarga: — Quem sabe se não nos cruzamos por acaso, antes disso. — À tentativa de intervir esboçada por Willi, Bogner fez um gesto negativo e acrescentou de maneira precipitada: — Aliás, enquanto isso também não vou deixar minhas mãos descansando sobre o colo. Ainda tenho setenta florins no bolso. Esses eu vou arriscar hoje à tarde nas corridas... na Praça dos Dez Cruzados, é claro. — Ele dirigiu-se precipitadamente até a janela, olhou para baixo, ao pátio da caserna: — O ar está limpo — disse ele, repuxou a boca num gesto amargo e sarcástico, levantou a gola do sobretudo, estendeu a mão a Willi e foi.

Wilhelm suspirou de leve, seguiu-o com os olhos por um instante, e em seguida apressou-se no ato de arrumar-se para sair. Com o estado de seu uniforme, aliás, ele não estava nem um pouco satisfeito. Se viesse a ganhar hoje, estava decidido a arrumar pelo menos uma farda nova. A sauna, ele resolveu deixar de lado, já que a hora ia tarde; em todo caso resolveu tomar um fiacre até a estação. Os dois florins que gastou já não tinham a menor importância.

 

 



[1] O florim, moeda de ouro – e depois de prata – em vários países, era a moeda oficial também do império austro-húngaro e dividia-se em oitenta Kreuzer (cruzados). (N. do T.)

[2] Schnabel significa bico. A expressão “calar o bico” também existe em alemão. (N. do T.)