Do “Posfácio” de Escombros & caprichos
Por Marcelo Backes
Elfriede Jelinek – “Paula”
Elfriede Jelinek nasceu em 20 de outubro de 1946 em Mürzzuschlag, no Steiermark, na Áustria. Estudou História da Arte, Teatro e Música em Viena, cidade em que viveu já a partir da infância. Roteirizou Malina, de Ingeborg Bachmann, e traduziu Thomas Pynchon, entre outros. Fez parte, por longo tempo, do Partido Comunista Austríaco (KPÖ) e sempre lutou contra as instituições viciadas de sua pátria austríaca – da família à igreja católica – sem jamais poupar o reacionarismo de líderes fascistóides como Jörg Haider. Em 1998, foi contemplada com o – já tantas vezes referido – mais importante prêmio literário da Alemanha, o Georg Büchner. Em 2004 foi consagrada com o Prêmio Nobel de Literatura
Jelinek antecipou a literatura pop em língua alemã com o romance nós somos chamarizes, baby! (wir sind lockvögel baby!, 1970); já essa obra assinalaria o virtuosismo lingüístico e a radicalidade experimental da autora austríaca.
A história é o pano de fundo macabro em várias das estórias de Elfriede Jelinek. A autora é dona de uma prosa marcada pela poesia; não é sem mais que ela disse admirar o ritmo da prosa de Thomas Bernhard. Se analisada micrologicamente, a frase de Jelinek revela qualidades poéticas de primeiro nível (veja-se, por exemplo, o romance bestial, não apenas porque tem 666 páginas, Rebentos dos mortos: Die Kinder der Toten, de 1995). Levantando a bandeira do feminismo – ChristaWolf é amena perto dela –, Elfriede Jelinek às vezes parece insistir na velha pergunta: quem come quem? como se essa fosse a chave de todos os mistérios e problemas do mundo; e através da pergunta ela desmascara um mundo cuja motriz primordial e mais nefasta é a “relação de poder”, de orientação patriarcal e capitalista. É o que pode ser constatado em obras como Desejo (Lust, de 1989) e na já citada Rebentos dos mortos. Jelinek é autora também de As amantes (Die Liebhaberinenn, 1975) e de A pianista (Die Klavierspielerin, 1983), romance em que conta a história de Erika Kohut; a personagem é “adestrada” por sua mãe a se tornar pianista e não consegue fugir ao próprio isolamento, não logrando, assim, encontrar sua identidade sexual, o que a leva ao fracasso total e irrestrito em termos humanos.
A violência cotidiana contra as mulheres é tema central não apenas em “Paula” – conto da coletânea A inocência infinda (Die endlose Unschuldigkeit, 1980) –, mas na obra da autora, conforme já foi dito anteriormente. As histórias de Jelinek são estudos da mulher oprimida, que deixa de ser ente por causa do homem. “Paula” fala do amargor total de uma pobre mulher que quer mudar sua vida e não se dá conta – nem ela mesma – de que não é capaz de fazer nada para que isso aconteça. As frases que ela regurgita não são mais suas próprias frases, mas frases viciadas pelo cotidiano da mídia e da propaganda, da sociedade de consumo, enfim, cheia de clichês, floreios e verdades tolas, que transformam inclusive a brutalidade mais selvagem em coisa admissível. Por mais que fale e aparentemente se desnude, Paula jamais chega perto de revelar seu próprio “eu”...
A combatividade de Jelinek – sobretudo no drama, também experimental – e sua análise materialista e impiedosa da realidade, tornam tanto mais estranho – e louvável – o fato de ela ter sido a décima mulher a receber o Prêmio Nobel de Literatura, a segunda da língua alemã depois de Nelly Sachs, em 1966.