O crime de um filho de comerciantes de Innsbruck

 

THOMAS BERNHARD

 

Tradução de Marcelo Backes

 

Logo depois de conhecer um pouco a pessoa dele eu já era capaz de fazer uma idéia altamente reveladora acerca de seu desenvolvimento, e de sua infância, sobretudo: ele sempre voltava a me descrever ruídos, cheiros da, hoje já há anos distante, casa de seus pais, o caráter sinistro de uma casa comercial sombria; a mãe e o silêncio das mercadorias misturadas e os pássaros presos na escuridão das abóbadas altas; o comportamento de seu pai, que na casa comercial da Anichstrasse não cessava de dar as ordens de um dominador de homens e imóveis sem o menor escrúpulo. Georg sempre falava das mentiras e calúnias de suas irmãs, das intrigas demoníacas que muitas vezes irmãos conseguem armar contra irmãos; uma vontade criminosa de aniquilação jogava irmão contra irmã, irmãos contra irmãs, irmãos contra irmãos, irmãs contra irmãs. A casa de seus pais jamais havia sido uma casa de crianças, como a maior parte das casas, das casas de família, principalmente nos melhores lugares, onde a condição do ar é melhor, costumava ser, mas sim uma casa de adultos, terrível e ainda por cima úmida e gigantesca, na qual jamais crianças haviam vindo ao mundo, mas apenas contadores pavorosos, bebês boca-abertas com faro para os negócios e para a opressão do amor ao próximo.

Georg era uma exceção. Mas ele era o centro de sua imprestabilidade, por causa da vergonha que representava para a família, sempre assustada e amargurada por causa dele; um centro entortado e aleijado, que eles a todo custo queriam ver fora de casa. Ele era assim e desfigurado pela natureza da maneira mais infame a ponto de fazer com que eles tivessem de mantê-lo sempre escondido. Depois de terem sido levados pelas artes médicas e pelas ciências curativas até o fundo de suas dignidades detestandas fecais e mantimentais no âmbito da desilusão, eles passaram a implorar, em pérfida comunhão, para que Georg fosse vítima de uma doença fatal, que o levasse para o além-mundo da maneira mais rápida possível; eles estavam dispostos a tudo, contanto que ele morresse; mas ele não morreu, e não ficou, ainda que eles todos juntos houvessem feito tudo a fim de fazer dele a vítima de uma doença incurável, sequer uma única vez (nem em Innsbruck, onde ele cresceu distante de mim apenas algumas centenas de metros, separado de mim apenas pelo rio Inn – nem eu sabia dele, nem ele de mim –, nem mais tarde durante nossos estudos em Viena, quando moramos no quarto situado no terceiro andar de uma casa da Zirkusgasse), fatalmente doente; sob os cuidados deles, ele apenas havia ficado cada vez maior e maior e sempre mais feio e caduco, sempre mais imprestável e necessitado de ajuda, mas sem que seus órgãos, que funcionavam melhor do que os deles próprios, sofressem junto... O desenvolvimento de Georg amargurava-os, sobretudo porque já no instante em que fora parido e jogado pela mãe urrante sobre a pedra angular do piso da lavanderia, eles haviam tomado a decisão de se vingar a sua maneira pela surpresa escabrosa do nascimento de um, de primeiro gigantesco, úmido e gordo, mas logo em seguida cada vez maior e, por incrível que pareça, mais frágil, mais saudável e horroroso “filho aleijão” (era assim que o pai o chamava), indenizando-se a si mesmos por uma injustiça das mais escandalosas; semelhante a uma conspiração, eles haviam decidido se livrar dele, de Georg, antes mesmo de ele, conforme eles ponderavam, causar-lhes um dano eventualmente irreparável tão-só por causa de sua existência e sem entrar em conflito com a lei; durante anos eles acreditaram que o momento, que eles suportaram esperar por tanto tempo, estava próximo, mas eles haviam se enganado, enganado a si mesmos; a saúde dele, a total ausência de doenças, o que dizia respeito ao pulmão de Georg, a seu coração e a todos os outros órgãos importantes, mostrava que ele era bem mais forte do que a vontade e a esperteza deles.

Por um lado horrorizados, por outro megalomaníacos, eles constataram não apenas a rapidez com a qual ele se tornava maior, mais saudável, mais frágil, mais inteligente e mais feio, mas também que ele, isso eles acreditavam de fato, não havia vindo da substância comercial centenária da família e acabaria ficando para sempre sob a proteção de suas asas; eles bem que mereciam, depois de vários partos natimortos, um dos seus, uma vergôntea ereta e não torta da estirpe comercial, que já passaria a proteger a eles todos desde o primeiro instante, para mais tarde carregá-los e levá-los para uma posição ainda mais alta, todos juntos, pais e irmãs, erguê-los ainda mais acima do lugar onde já se encontravam; e eles haviam recebido, não imaginavam da onde, pois ao final das contas acabara saindo pelo pai do corpo da mãe, uma criatura que, do ponto de vista deles, era um animal inútil, que pensava para baixo e cada vez mais para baixo, e ainda fazia suas exigências de roupa e prazeres e que, ao invés de cumprir seu papel de protegê-los, tinha de ser protegido, que ao invés de sustentá-los tinha de ser sustentado e que deveria ter gosto em amimar mas não amimava; pelo contrário, Georg era e ficaria sendo um naco de carne sem o menor préstimo, para sempre deitado no caminho e no estômago deles, que ainda por cima escrevia poesias. Tudo nele era diferente; eles consideravam-no a maior vergonha de sua família, desde sempre unida apenas pela realidade e não por fulgores duvidosos quaisquer de imaginação. Ele falou muitas vezes, no quarto que havíamos alugado na Zirkusgasse em Viena depois de termos nos encontrado em um restaurante na Leopoldstadt e decidido seguir nosso caminho juntos, do seu “cárcere infantil em Innsbruck”, e ele estremecia quando julgava necessário falar do “golpe do chicote de amansar bois”, aquelas palavras que sempre haviam sido difíceis para ele, diante de seu ouvinte, diante de mim, que ao longo de anos, ao longo de oito semestres, fui seu único ouvinte. Porões demasiado grandes, demasiado gigantescos para ele, e sacadas e balcões, e escadas de pedras demasiado altas, e portas de alçapão demasiado pesadas, casacos demasiado largos e calças e camisas (os casacos e calças e camisas já gastos no corpo do pai), assobios paternos demasiado altos, gritos maternos, casquinadas das irmãs, saltos de ratos, latidos de cães, frio e fome, solidão estúpida, mochilas escolares demasiado pesadas para ele, pães inteiros, sacos de milho, sacos de farinha, sacos de açúcar, sacos de batata, pás e carrinhos de mão, determinações incompreensíveis, atividades, ameaças e ordens, punições e medidas disciplinares, golpes e pancadas constituíram sua infância. Ele ainda era, mesmo depois de já ter saído há vários anos de casa, torturado pelos meios-porcos defumados que era obrigado a carregar (e carregar sob o peso de que dores) ao porão e depois voltar a trazer do porão para cima. Mesmo depois de anos, e de uma distância de setecentos quilômetros, em Viena, ele ainda sentia medo e recolhia a cabeça às golas altas do sobretudo quando atravessava, no escuro, o pátio do comércio paterno de Innsbruck, e descia, sacudido pela febre, ao porão do comércio paterno de Innsbruck. Quando ele, dia-a-dia obrigado debaixo de bofetadas a se embrenhar nos cálculos comerciais paternos, errava alguma conta, era (quando ainda nem completara seis anos fora a primeira vez) trancado pelo pai ou pela mãe ou por uma de suas irmãs na adega do porão e chamado por um determinado tempo apenas de “criminoso”; primeiro era só o pai que o chamava de criminoso, porém mais tarde, conforme ele se lembrava muito bem, também suas irmãs e depois até mesmo sua mãe passaram a fazer uso do grito de “criminoso”. Totalmente “incapaz de educar”, ela, que só agora, depois de tantos anos e apenas por estar separado dela por incontáveis cadeias montanhosas, em seu tempo de estudante vienense lograva enxergar sob uma luz mais suave, sempre havia se ajustado por completo, nas coisas que diziam respeito a Georg, à conduta do lado mais forte da família, ou seja o do pai e das irmãs. Pai e mãe haviam-no espancado com uma regularidade horripilante, várias vezes por semana, usando o chicote de amansar bois.