FRAGMENTOS DE ESTILHAÇOS

Marcelo Backes

 

Império dos sentidos

Dói tanto ver!

Quem menos ama,

tem mais poder...

 

 

Esboço crítico,

psico-orientado,

da minha própria literatura

Subir o cerro

da superfície de um lago:

o do passado!

E sem nenhum desespero...

 

 

Pontapé na cautela

Não vou deixar de fumar meu cachimbo só porque o mundo é um barril de pólvora...

 

 

Passeio secreto e catártico

ao círculo polar ártico

Nas terras frias e plácidas da Lapônia,

meu Uruguai deságua num lago da Francônia

...

e a pororoca revolta devora

minha pobre alma em polvorosa;

sobra a vossoroca dolorosa

e a borrasca depois da aurora.

 

 

Princípio

Viver

é escrever

pra não

matar...

 

AÇOUGUEU

 

O negro, negro, negro sangue

do meu matadouro interior

é a tinta que o papel lambe

pra amainar em vão minha dor.

 

 

PLANTAR BATATAS

se não quisesse ganhar o prêmio nobel um dia

eu com certeza jamais escreveria

 

 

 

Arco – Qualquer coisa que delimitava um espaço qualquer em qualquer lugar do mundo. Jamais tinha a forma determinada pela nomenclatura geométrica e raramente aquela que viríamos a conhecer mais tarde, nas “regras” da vida adulta. Mais conhecido na cidade grande como ? goleira .

Arranca-toco – Não sei de onde o Aurélio tirou que é regionalismo usado no Maranhão e em Minas Gerais. Nos campos em que jogávamos, e do jeito que jogávamos, o conceito existia e não era nem metafórico. Confesso minha decepção ao ver que o Houaiss também já registrou o verbete e aproveito para fazer uma correção. Pra nós, arranca-toco jamais caracterizou um jogo; caracterizava era o jogador, eventualmente um time inteiro, uma vez que todos nós tínhamos um pouco de arranca-toco. Aproveito também pra dar um aviso... Esse dicionário é um glossário nostálgico das palavras que usávamos no meu futebol missioneiro e da concepção específica que algumas delas, gerais, assumiam. Isso não exclui a possibilidade remota de algum lexicógrafo ter catalogado nossa criatividade, nem a de algum papudo dizer que usava as mesmas palavras em outra região; copiando de nós, claro...

Atacar – Tinha significado invertido no meu futebol missioneiro. Referia a missão ingrata de quem tem de ficar entre os paus, as pedras, mochilas, chinelos, garrafas ou a bosta seca das vacas – opção mais acessível quando o bochincho acontecia num potreiro – do ? arco . O verbo marcou tanto que me fez cometer uma gafe e meia no primeiro dia em que joguei futebol na Esef, a Escola de Educação Física da Ufrgs. É que alguém gritou: “Tu, que é parecido com o Taffarel, vai na goleira”. E eu, tímido, três dias de Porto Alegre: “Mas eu não sei atacar.” O outro, grosso: “Por isso mesmo!” Depois de dois ? frangos e um ? peruzão , me deixaram atuar na linha. Em três semanas eu já fazia parte do plantel da seleção de futebol de campo da gloriosa Esef.

LateralS. f. A linha lateral era questão das mais complicadas e gozava de uma existência apenas metafísica. Quer dizer, na largura o campo terminava onde se tornava impossível disputar uma bola. Cinco ou seis árvores pouco importavam. Um riacho de mais de três metros de largura – a fim de que ninguém pudesse pular sem riscos por cima dele – ajudava um bocado... Um precipício também! O ideal era um barranco íngreme, impossível de ser escalado sem a ajuda das mãos. O caráter fluido da linha lateral muitas vezes dava aos campos do meu interior missioneiro um aspecto pra lá de sui generis. Era normal eles serem pelo menos três vezes mais largos do que compridos. Afinal o ? arco era uma delimitação inexorável ao comprimento... Quando o já referido prefeito Arlindo construiu a quadra de esportes superfaturada nós jamais respeitamos as linhas demarcadoras. Mas nossa sede intensa de liberdade – sempre interpretei a ausência das laterais como uma metáfora para o campo aberto dos pampas –, acabava na tela que cercava a quadra. A tela, usada como tabela, aliás, passou a ser artifício dos mais eficazes para dar uma meia-lua. Para meia-lua, madame, ver Houaiss ou Aurélio, que não vou me ocupar aqui de um lugar-comum.

Quatro dos vários verbetes do

“Pequeno dicionário nostálgico do meu futebol missioneiro”

 

 

Ademar – Professor; ex-professor, na verdade. Meu herói e paradigma de conduta. Sua virtude ativa no sentido de desasnar um rincão perdido nos confins do mundo missioneiro – vítima da geografia, da história e do catolicismo – não cabe na passividade descritiva de um verbete, e já mostra de antemão os limites de um gênero literário que, se é adequado às circunstâncias narrativas, está longe de ser perfeito...

Claci – Acho que o nome era para ser Glaci, mas o escrivão do município, que é mulato, faceto e não sofre dos problemas lingüísticos típicos dos colonos anharetenses, em sua maioria – aliás contestada!, vide estatísticas da comunidade de confissão ortodoxa e da associação de polenteiros italianos – descendentes de alemães. Claci... O oficial do poder público deve ter sacaneado os pais e registrado o nome exatamente segundo as regras fonéticas, conforme a primeira vez em que foi pronunciado. A Talva, a Tulce e a Tirce por certo não existiriam – pelo menos não em seus três tês tão taxativos de trigêmeas tesudas – se não fosse o tal escrivão... Claci nasceu no interior do interior da Linha Pica Fumo. Nos serviços de empregada, tinha toda a confiança do médico, ao contrário da Gessi e da Loreci, mas assim como elas acabou se mudando pra Porto Alegre. Por que foi que ela se bandeou, poucos além de mim souberam. Gessi foi demitida por passar a mão nuns trocados do esculápio, Loreci por causa do estetoscópio; primeiro uma, depois a outra. Claci não! Era honesta... A capital não bastou para fazê-la esquecer o crime que não cometeu, e Claci entrou na Assembléia de Deus a convite da onipresente Gessi, que também se convertera no intuito mui objetivo de comer o pastor, dizendo não resistir às mangas curtas de sua camisa engravatada. Claci pensa que sob o poder das rezas contínuas Deus enfim perdoará a virgindade que ela perdeu, sem forças, debaixo do Evilázio no milharal do Selvino. O que dói mais na consciência da moça é o fato de ter gostado; ouvi os gemidos, e não eram de dor. O suicídio é uma corda eterna bailando sobre sua cabeça...

Gelásio – Irmão gêmeo do Gervásio. É tão pudico e religioso que não olha o pinto quando vai mijar no pátio... Só trepou uma vez na vida. Com uma carpa de quatro quilos! Tinha treze anos e, depois de dar o dedo, botou o pingolim na boca desdentada do peixe. Deu certo e ele gostou, mas até hoje – foi uma promessa – reza dez pai-nossos e dez ave-marias por noite a fim de alcançar o céu. Penitência padrão! Não teve coragem de se confessar, mas acredita que Deus o perdoará se não quebrar o compromisso. Depois que nossa estória terminar, se considerará culpado pelo inferno moral de Anharetã e se jogará no Batista, o poço mais fundo do rio Sem Peixe, depois de sonhar mais uma vez com quarenta cardumes de carpas sugando o sangue sujo de seu corpo pecaminoso. Gervásio achará suficiente buscar consolo num porre.

Três das várias microbiografias de

“Glossário de nomes que são ou História onomástica de Anharetã”