PRELÚDIO TEÓRICO
Ou o caminho que leva do aforismo ao miniconto e além
Quando o vidro da literatura quebra sob a pancada do eu, saltam estilhaços! E são eles, aqui e no universo, que denunciam a existência da janela – no mais das vezes invisível, porque transparente – entre a alma e o mundo...
O aforismo, assim como o epigrama – sua versão versificada no presente livro –, é um bailado entre a representação do real e o esboço daquilo que ainda não é real, o instrumento mais eficaz no sentido de desvendar, de desmascarar o mundo a nossa volta e nossa própria alma escondida.
E mais! O aforismo – e quando digo aforismo estou dizendo também epigrama – é o suspiro íntimo de uma trombeta universal, uma generalização cheia de individualidade, um espasmo público carregado de privacidade. Sua linguagem é rigorosa, burilada e fundamentada na palavra contundente. Ele luta contra a ditadura do usual – tão-só por repetir o comum, às vezes – e caracteriza-se pelo dinamismo, pela ousadia, pelo entusiasmo, pela consciência extrema, pelo fato de, por natureza, encarar o difícil... Ele é um acrobata do espírito, um passeador distraído, um atirador de facas sempre pronto ao combate.
O aforismo é anti-sistemático, de ascendência espontânea e fundado num arremate sentencioso. Sua origem está, sempre, intimamente ligada aos fatos, à experiência e à realidade; quer dizer, à vida. Ele é radical no pensar e na exposição do pensamento, demonstra a consciência crítica e a agudeza racional do escritor, nascida da observação diferenciada da realidade e da qualidade invulgar de sua experiência. Pouco sentimental no mais das vezes, o aforismo mesmo assim é capaz de revelar a subjetividade do autor com pregnância, concisão e furor. Na condição de expressão imediata da comoção interna tocada pela experiência, ele é o gesto mais puro – e muitas vezes mais patético – do eu, o testemunho derradeiro do acerto de contas sangrento do autor consigo mesmo...
Dos vidros que quebro nesse livro saltam estilhaços grandes e pequenos. A quantidade de cacos diminutos é maior, mas sobram alguns grandes; assim como num vidro que se espedaça. Os pequenos parecem sempre mais afiados, mais pontudos; assim como nos estilhaços. Muitos deles são transformados em mosaico ao serem colados uns ao lado dos outros sob o fundo prateado de uma estória, chegando a compor um espelho, ou melhor, o martelo de Marx, que – pelo menos pretensamente – é capaz de moldar o inferno moral da sociedade através das figuras do autor, do narrador e de seus personagens; que não raro se confundem...
O que o leitor encontrará aqui é, em suma, o fulgor estilhaçado de anos de anotações. Se às vezes abro mão da abrangência geralmente global do aforismo – sem deixar de beber na fonte da cultura popular ou dos antepassados aforistas, seja dito – , especificando os meus e transformando-os em setas de ataque – adagas que el sur joga a meus pés –, é no sentido de afrontar ainda mais o sistema, objetivo maior do gênero. Quem agride abre a guarda, quem bate se desnuda... Se de quando em quando fantasio, distanciando-me de mim através do escrito e procurando briga comigo mesmo, é pela mesma razão, e para me ver melhor de longe, de fora. Uso a máscara, a fim de mostrar meu rosto...
E por que acho que tanto aforismo quanto epigrama constituem uma obra de arte completa, o ouriço de Schlegel – fechado sobre seu próprio corpo e ainda por cima espinhento –, inclusive dou um título aos meus. Alguns deles, nada teóricos como os da primeira parte, até podem ser engavetados na categoria do miniconto, tão em moda nos últimos tempos, e constituem narrativas ínfimas – ora em prosa, ora em verso – com princípio, meio e fim na brevidade agressiva de três linhas. Uma das partes do livro é um conto até bem longo em forma de glossário, outra é um dicionário, mas ambas – além de provar a fábula e a capacidade fabular daquele que ora vai se despedindo – seguem o princípio orientador da obra: o estilhaço.
O leitor comece a juntar meus cacos – estilhaços! – por onde quiser...
Marcelo Backes
Freiburg, junto à Floresta Negra,
junho de 2005.