PREFÁCIO

 

 

 

Horácio recomendou nove anos de repouso a uma obra antes da batalha da publicação. E o conselho não foi dado em uma de suas sátiras... A arte do combate é uma obra de 15 anos de idade e muitas temporadas de repouso. Reúne boa parte de minhas atividades e experiências com a literatura em língua alemã, sistematizadas nos últimos meses em horas de labuta lúdica.

A lida na área começou bem cedo, ainda na adolescência, e se estendeu numa série de traduções, ensaios, palestras, comentários e apontamentos privados. Conciliados – e arrematados no exílio espontâneo –, os diversos trabalhos adquirem unidade na forma de um livro abrangente, didático – quase enciclopédico –, pretensamente espirituoso e ideologicamente combativo.

Descerrando as cortinas da obra, o leitor encontrará um Cânone da literatura alemã. Esse cânone – que surge do embate entre a importância objetiva das obras e meu gosto subjetivo – abre uma vereda na floresta da literatura tedesca, fincando estacas de obras por todos os lados a fim de aboar e sinalizar o caminho.

No final, fazendo as vezes de Posfácio, há um ensaio que recebe o sonoro título de “Viva a crítica que mete o pau”. Ele chama o Brasil às falas e analisa a indigência contemporânea da crítica literária brasileira, confrontando-a à opulência crítica característica da literatura alemã. De certa forma, esse ensaio explica – e falo de aspectos subjetivos – a existência do livro.

A obra “em si” começa – de maneira assaz insinuante, aliás – por Lutero, o pai do alemão moderno, e termina em Brecht, o “último” combatente da arte. Reúne poesias, fábulas, cartas, excertos, epigramas e aforismos – a maior parte deles inéditos no Brasil – dos mais representativos dentre os autores alemães do período que vai de Lutero a Brecht. Esses textos, todos eles combativos a seu modo, são organizados de maneira parcialmente cronológica e divididos por períodos, períodos que têm lá seu aspecto arbitrário – e se mostram limitados na caracterização de algum autor, por vezes –, mas são importantes por seu valor didático. E essa discussão não pára por aqui... Cada um desses textos – ou conjunto deles – é seguido de um comentário específico. Cada período histórico-literário é introduzido por um comentário geral, no qual é apresentada uma visão panorâmica da literatura alemã, de seus primórdios aos dias de hoje. Nesses comentários introdutórios são mencionados também – e avaliados de maneira curta – autores e obras anteriores a Lutero (primeiro comentário) e posteriores a Brecht (Adendo longuíssimo). Do mesmo modo, são referidos os escritores que deixaram de ser contemplados no corpo do livro, de um lado pela escassez do espaço, de outro pelos critérios de seleção, explicados a seguir...

A seleção dos autores – e sobretudo o espaço concedido a eles – respeita uma ordem subjetiva, ainda que mediada por considerações de talhe objetivo. O ponto de partida é a língua alemã, elemento que unifica todos os autores escolhidos. Comparecerão, portanto, autores não apenas da Alemanha, mas também da Áustria e da Suíça. Se um tcheco do calibre de Kafka escreveu em alemão, ele também é contemplado, e o mesmo acontece com um húngaro do quilate de Moritz Saphir. Atendendo às disposições do meu paladar literário – que tem lá sua régua e seu compasso, fique claro –, determinei que o espaço de Heine fosse maior que o de Goethe, que o de Karl Kraus fosse maior que o de Hermann Broch. Mas os quatro escritores – é o crivo objetivo – comparecem. Foi também o gosto que me fez conceder espaço privilegiado a Johann Nestroy, Moritz Saphir e Alfred Kerr e não concedê-lo a Ferdinand Raimund, Friedrich de la Motte-Fouqué e Franz Werfel, por exemplo. Todos eles são quase desconhecidos no Brasil... eu prefiro os primeiros – e digo porque –, mas não deixo de referir os três últimos.

De quebra, o leitor encontrará – sempre que o gênero for mencionado pela primeira vez – uma breve história do aforismo, do epigrama, da fábula, do diário e assim por diante. Antes do Posfácio, na condição de Adendo longuíssimo, esboço um panorama da literatura alemã contemporânea, desde o final da II Guerra Mundial até os dias de hoje. Para fechar o livro, organizei um Índice remissivo que, além de facilitar a consulta temática e autoral direta, adquire valor de glossário através de sua abrangência e detalhismo.

Se Mário de Andrade disse certa vez que “toda a obra de arte é combativa”, os fragmentos selecionados para A arte do combate caracterizam-se de maneira específica e direta pelo tom aguerrido. Se chama a atenção o fato de serem tantos os aforismos – em maior número do que as poesias, por exemplo, embora seja maior o número de autores que escrevem poesias do que o daqueles que escrevem aforismos – é pelo simples fato de que o aforismo é o gerrilheiro na batalha da língua. Ele provoca tumulto onde reina a calma; cava trincheiras no terreno das opiniões, dá espadaços na arena dos princípios, mina o campo dos debates. Ataca sozinho ou em grupos, conforme a situação e a necessidade, abrindo brechas nas fileiras inimigas. O aforismo não precisa das muletas da rima, do apoio do ritmo ou do suporte da melodia. É apenas um estilhaço de pensamento feito prosa, uma máxima espirituosa de fôlego curto, sabedoria imensa e índole combativa. Mesmo assim, ele é capaz de emitir um juízo ou expressar um conhecimento e desvendar o mundo na ligeireza de um espasmo. O aforismo é uma obra em três linhas... Se o número de epigramas também avulta, aliás, é porque o epigrama é o aforismo feito verso, a lírica de pedras na mão, a poesia em sua versão curta, mordaz e picante.

No frigir dos ovos – e voltando à seleção literária – mesmo escritores como Novalis, cuja maior característica sempre foi aquilo que Antônio Cândido chamou de “romantismo descabelado”, aparecem combativos de repente, depois de uma busca criteriosa e abrangente em sua obra. No comentário que segue o trecho selecionado, entretanto, ponho os pingos nos “is”, ilumino a postura geral do autor e defino sua obra, usando a joeira da crítica.

Esses comentários, que servem de rodapé a cada um dos cento e poucos sub-capítulos e suas “chispas poéticas”,* esclarecem a vida e a obra dos autores apresentados, todos eles analisados de maneira crítica e apreciativa. Por vezes os comentários metem seu bedelho em comparações e fazem – à maneira de pinceladas – considerações acerca da literatura e da crítica brasileira contemporâneas. Essas considerações são marcadas pelo subjetivismo, muitas vezes agressivas e quase sempre ácidas.

Cara a cara com o livro, o leitor talvez descubra que não é por acaso que a palavra “guerra” descende etimologicamente do germânico ocidental werra (“discórdia”, “peleja”); que os vocábulos blocausse, acha (a arma), alabarda, arcabuz, sabre e pistola têm – todos eles – alguma passagem importante pela língua alemã. A sabedoria popular tem razão quando diz que os alemães aprendem a torcer o nariz – e a metê-lo em tudo – antes de aprender a limpá-lo.

A arte do combate revela que a postura crítica dos autores alemães – desde o princípio, mormente com Walther von der Vogelweide, passando por Lutero, Heine, Marx, Kraus e tantos outros – é uma questão de princípio. Todos eles parecem estar de acordo com Heráclito, o filósofo dialético grego, que declarou ser o combate o “pai de todas as coisas”.

Olhando de soslaio para o próprio umbigo, e chamando a literatura brasileira às falas pela primeira vez, vemos que a falta de combatividade nos trópicos é até formal. Se o aforismo é a principal arma na guerra da literatura, são mínimos – quase nenhuns – os escritores brasileiros que o praticam. Se o epigrama é o verso engatilhado, prestes ao disparo, seu eco no Brasil é diminuto, praticamente nulo.

Ora, direis, até a independência nós alcançamos num papo de gabinete...