A história do Toz
Marcelo Backes
— Dessa vez o Toz se enforcou de verdade !
O Lautério avisou e já foi ligando a moto de novo pra chamar o resto da vizinhança , a fim de procurarem o morto .
Eu , ainda atordoado depois de sestear comprido , me mandei direto pro galpão da vítima a ver se encontrava a corda de embrochar os bois . Só vi a canga , solitária , em cima da carroça coberta de palha . Os bois pastavam perto e não me disseram nada . As angolistas, se é que disseram algo com o alvoroço , não se fizeram entender . Será que o Toz tinha mesmo se enforcado?
Triste , a história do Toz, que ninguém mais sabia que um dia se chamara Protásio, na pia batismal; a aférese alemanizada do nome pegou como cadilho em rabo de matungo. Quase quarenta e ainda solteirão numa terra em que os normais se casavam aos vinte! Pior era a comunidade inteira se achando no direito de dar opinião pra tentar desencalhar o homem , especulando candidatas em qualquer canto onde um rabo de saia sem dono ameaçava ir mostrando as fuças . A Tila, que era Bertila, pena , se mudara pra Dois Irmãos , seguindo o caminho das cinco irmãs do Toz e de mais da metade dos moradores de Anharetã. O Toz, que também estava desesperado com a solteirice, até já havia convidado meio mundo pro casamento , discutido a missa com o padre e engordado um boizinho pra carnear na festa . Só a noiva é que não sabia de nada , e solucionou o caso fugindo pra cidade calçadista, a fim de engordar o exército de reserva das fábricas em crise depois da queda do dólar.
E fora a Tila, quem havia? A Mirtes lamentavelmente já passara da idade em que as mulheres ainda são mulheres , e a Cledir era ainda mais pobre , ainda mais feia e ainda mais boba do que o Toz; nem pra parideira dava, tanto lhe faltava o tutano . Até eu cheguei a campear nas redondezas em busca de uma casadoira pro Toz, e nada . O interior ! O que menos sobrou na pequena propriedade rural da região missioneira foram mulheres . Além dos velhos que por lá morreriam, ficou só algum rapaz ingênuo e teimoso , decidido a tocar a chácara utópica dos pais adiante . O Toz e eu éramos duas exceções ; mas vamos me deixar de lado e falemos do Toz, até porque eu sou um caso à parte , e ademais não fiquei, apenas voltei depois das pendengas na capital .
No ano passado , ainda por cima , o pai do Toz morrera vítima de raio , deixando de herança o rancho em tapera , quatro hectares de terra , pura laje e cerro , e umas dívidas no bolicho do Teodoro. Pobre do Toz, solito com a mãe velha e o destino ancestral , começou a fazer o que todos em Anharetã faziam: beber , beber pra esquecer , depois beber pra esquecer que bebeu e em seguida beber de novo . Quantas vezes o vi sentado no bolicho, empinando um martelinho atrás do outro , depois de receber os quinze reais da diária que eu lhe pagava pra capinar a roça onde eu plantaria os pés de azeitona que me deram causa e razão pra viver na volta ao interior !
Mas não é que de repente , há questão de três meses, o Toz aparecera com uma namorada , broto no vigor dos dezesseis, recém mudada pro lugar , citadina nos modos , e, por incrível que pareça, bonita ? Até eu estiquei meus olhos pra morenice da potranca , a matéria era escassa naqueles pagos . Mas depois desviei a vontade , decidido que estava a deixar quietos meus lobos álmicos depois da volta . Não , eu não queria mais enfrentar processos como o último , quando fui obrigado a ver a mãe chorando acusadoramente – depois de a filha ainda jovem ter dito sim em juízo , sim , ela disse sim , e aos catorze uma mulher já sabe dizer sim , me defendi – em meio a um tribunal lotado pelo interesse da imprensa . Acossado pelos parentes da menina , não consegui conviver com a perseguição cotidiana dos parasitas do microfone na capital , e decidi voltar à querência abandonada há tanto , a fim de isolar minhas ânsias no potreiro sem chances da colônia pobre das missões .
Pois não é que a Doroti parecia loucamente apaixonada pelo Toz? Ela até afagava as esculhambações que a natureza fizera no rosto do vivente antes do culto dominical – e mesmo durante , o que já era meio demais –, como a querer provar pra todo mundo que o amor que sentia era de verdade . E nos bailes , então ? Não foi nem uma nem duas vezes que a vi arrastando o Toz pra pista de danças , enquanto ele forcejava pra conviver alguns minutos em harmonia com sua falta de jeito , esboçando um vanerão. A comunidade não sabia se ria gozando da cara dele ou se chorava de pena . Ou de emoção , já que ainda havia os que acreditavam no sentimento , apesar da dureza da vida . Eu , eu mesmo não alcançava o mistério daquele chamego e só não avancei de vereda na percanta porque senti o arame farpado da cerca que eu havia estendido à volta do meu cerne selvagem .
Enamorado, o Toz parou de beber , começou a levantar cedo , com o sol , e quando as galinhas iam dormir ainda estava no batente , dando pasto pros bois que acabara de livrar do arado , pra vê-los dispostos e prontos a acompanhá-lo no dia seguinte . Depois do arado viria a máquina de plantar soja , depois a foicinha da colheita , a trilhadeira, e os trocos felizes da moega do bolicho. Eu fiquei sem peão na época do plantio e o Toz só descansava aos domingos , no colo da prenda .
Depois de dois meses de namoro o Toz, que jamais havia botado a língua no açúcar do mundo e apesar de escaldado com a bancarrota da Tila, decidiu de novo que era hora de se casar . Dessa vez perguntou primeiro , cheio de arreceios, e a Doroti disse sim .
Foi aí que a mãe do Toz, a velha Arsênia, encrencou. Se desde o princípio se mostrara avessa , emburrada, ela foi clara ao saber da notícia :
— Não , o Toz não se casa ! Enquanto eu tivé viva o Toz não se casa ! E se ele se casá com essa negrinha empiriquitada eu juro que me enforco.
“Churo que menforco”, ela disse, no sotaque louro de alemoa. [...] CONTINUA